Nobilis: Avaliação e Informações Adicionais

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Neste último post sobre Nobilis, o Game Gourmet traz uma avaliação do conteúdo do livro “Nobilis: The Game of Sovereign Powers”. Para os que ainda não acompanharam os outros posts a respeito do jogo, as outras etapas desta receita podem ser encontradas nestes links: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4 O primeiro descreve o cenário de Nobilis, enquanto os demais ensinam como criar personagens e jogar, usando apenas alguns elementos básicos, mas suficientes para degustar o Manjar dos Deuses.

Para o leitor que está chegando agora, talvez esta avaliação seja um bom ponto de partida para decidir se deseja investir mais tempo para aprender sobre as regras e o mundo do jogo e, quem sabe, adquiri-lo (também trouxemos informações de onde encontrá-lo).


AVALIAÇÃO DO JOGO

Pontos Positivos

Trata-se de um livro bonito, cujo conteúdo, em certos pontos, se confunde com uma obra literária. Essa mescla foi uma opção consciente explorada pelos criadores, para trazer seu jogo àqueles que têm maior potencial em aproveitá-lo: os jogadores Narrativistas. O fato de não haver dados ou outros materiais necessários para realizar testes também contribui para o gênero Narrativista.

Para os que apreciam compor histórias, detalhar personagens, ambientes, não há motivos para não gostar deste jogo. O texto do livro, mesmo as partes que contêm regras e tabelas, foi escrito na fala de uma personagem, a Nobre Lady Ianthe. A apresentação do universo do jogo se dá pela voz de alguém que está inserida naquele contexto, e convida o leitor a fazer parte do mesmo. A personagem mostra preferências e opiniões pessoais, o que aproxima o autor dos leitores e oferece mais vivência do cenário, ambos de uma só vez.

Um ponto forte de Nobilis é o fato de que, nesta conversa com o leitor, dicas importantes sobre como administrar, conduzir e participar de um jogo são dadas. O livro fala sobre o Contrato de Jogo (semelhante ao nosso Contrato Social), estimulado o HG a sempre consultar os seus jogadores a respeito do direcionamento do jogo, exaltando o entretenimento e diversão, e reforçando que temas que possam levar o conflito de dentro para fora do jogo devem ser tratados cuidadosamente, pois certos assuntos podem causar desconforto (como sexo, violência e religião).

O livro também orienta o HG a usar o feedback dos jogadores para ajudá-lo a fazer com que todos participem de forma relevante do jogo. Esta prática é mais evidente quando observamos a mecânica de Âncoras e de morte dos personagens jogadores: quando um grupo se separa (em dois ou mais), na maioria dos demais RPGs, o narrador é obrigado a fazer uma de três coisas: disponibilizar sessões inteiras para alternar entre os grupos (de longe, a pior opção), realizar uma narração alternada entre os grupos (ruim, caso o narrador não esteja muito seguro em sua narração), ou narrar simultaneamente as duas ou mais cenas (a que tem chances de ser melhor, mas pode facilmente se tornar desorganizada e estranha). Em Nobilis, os jogadores cujos personagens não estão na cena podem enviar os Âncoras como seus avatares, incluindo usar os próprios poderes através deles!

Caso não seja possível, o livro sugere conceder alguns personagens extras aos jogadores que tiverem os personagens ausentes, para que eles interpretem durante aquela(s) cena(s). Quando um personagem morre, o Imperator providencia a criação de um novo Nobilis para substituí-lo – ele pode ser uma “reencarnação” do personagem anterior, ou praticamente todo diferente (o jogador escolhe). Essas mecânicas garantem a participação de todo o grupo a todo momento.

Pontos Negativos

Por ser um jogo extremamente Narrativista, o grande público de jogadores Jogativistas pode acabar não sendo contemplado por Nobilis.

Além disso, a falta de organização das informações é um ponto crítico. Mesmo para aqueles que estão dispostos a conhecer a fundo o ambiente do jogo podem se chatear com o fato de que o fluxo de leitura é perturbado, a todo instante, por falhas na distribuição das regras, tabelas, subtítulos deslocados de onde deveriam estar, exemplos que aparecem cedo demais com termos ainda desconhecidos para o leitor, ou capítulos inteiros que abordam temas ou regras de forma incompleta, a serem complementados muitas páginas a frente.

Avaliação das Regras

Nobilis possui um conjunto bastante simples de regras, onde se pode criar muitos efeitos e realizar diversas ações com pouco conhecimento. Apesar disso, o modo como as regras são apresentadas (espalhadas pelo livro), e a liberdade do que se pode fazer com os Milagres torna tudo um pouco mais complicado.

Um grupo inexperiente pode aprender as regras com facilidade, mas não aproveitar toda a abrangência que o sistema tem intenção de permitir. Isso quer dizer que, sem uma orientação de um jogador que já conheça bem o jogo, o grupo pode acabar experimentando sessões ou uma campanha sem tanto glamour quanto se promete em Nobilis, por sentir-se perdido com o quão abertas são as opções (embora isso não seja uma desvantagem!).

Para compensar este fato, o livro conta com exemplos extensivos de cenas, incluindo uma sessão inteira (Capítulo 7: “An Example of Play”, páginas 57 a 76) com todas as interações entre os personagens e jogadores bem descritas, o que ajuda a ambientar os jogadores no cenário.

Uma cena pode transcorrer rapidamente, uma vez que a matemática é bastante simples, e o grupo pode se focar no real aspecto de Nobilis, que é a interpretação e narração dos fatos ocorridos. É mais importante que a ação seja interessante e digna de um Nobre do que perder tempo discutindo o sucesso ou falha; que funciona perfeitamente devido a ausência de dados e modificadores.

Por outro lado, a organização das regras é bastante confusa no livro. As informações aparecem meio fora de ordem, alguns subtítulos são ambíguos e faltam referências de páginas para auxiliar na busca de informações. Algumas vezes, nem os exemplos ajudam a orientar o leitor, mas preparamos uma sugestão de ordem de leitura que resolve quase todo esse problema (veja ao final do post).

Excetuando o problema de organização, Nobilis é um bom jogo e vale a pena desbravar o livro para aprender as regras e conhecer o cenário.

Outro ponto positivo, que o próprio livro comenta, é sobre as vantagens de se jogar Nobilis pela internet. Um personagem não terá sua ação definida em alguns segundos – ao invés disso, haverá tempo para explorar mais opções, compor diálogos mais ricos, ações mais glamourosas (ou menos!) e cenários mais vivos.

Dados do Produto Nobilis (Livro)

Título: “Nobilis: The Game of Sovereign Powers”.
Edição: 2ª.
Autor: R. Sean Borgstrom.
Dimensões do Livro: 28,2cm x 28,7cm.
Peso: 1,5kg.
ISBN-10: 1899749306.
ISBN-13: 978-1899749300.
Páginas: 304.
Disponibilidade: Amazon, US$ 89.93 (Livro usado), US$ 182.32 (Livro novo); Drive Thru RPG, US$ 19.95 (PDF). Devido a disponibilidade desta edição, os preços são um pouco elevados em comparação a outros jogos.

Nobilis, Live Action: o suplemento “The Game of Powers” transforma Nobilis em um “Live Action RPG”, permitindo que o mesmo seja jogado como um teatro de verdade.


APÊNDICE: APRENDENDO NOBILIS DE FORMA OBJETIVA

Se você quiser, de fato, adquirir o material completo, fizemos este guia para auxiliar no aprendizado (devido a organização confusa do material no livro). Siga a seguinte ordem de leitura:

Capítulo 5 – “The Essence of Nobilis”
(Páginas 45 a 48*)

A primeira parte do capítulo é importante para jogadores recém iniciados tanto em Nobilis quanto nos RPGs em geral. Fala-se, em poucas palavras, do estilo do jogo, que é um RPG Narrativista, focado mais na criação da história do que em aspectos normativos e matemáticos. Em seguida, traz uma breve explicação sobre o funcionamento de um grupo de jogo, falando sobre os papéis dos jogadores, do HG, e do comportamento dos mesmos ao interagir dentro e fora da história.

Logo após, vem um resumo do contexto do jogo, muito útil para se ter uma noção imediata do cenário em que os Nobilis estão inseridos, e sem a necessidade de passar por todo o detalhamento dos primeiros capítulos. Não que eles não sejam importantes, mas, para um primeiro contato, uma verão sintética é mais apropriada.

O capítulo termina com uma breve apresentação das caraterísticas de um personagem, que serão melhor explicadas a frente. O subtítulo “Character Creation” contém informações importantes sobre as características dos personagens, mas, apesar do nome, não é um bom guia para iniciar a criação dos personagens.

* A partir do subtítulo “Action” (p.48), tudo se torna um pouco confuso, portanto sugerimos que seja ignorado (o Capítulo 9 explica tudo de forma mais clara).

Capítulo 9 – “Attributes”
(Páginas 82 a 110*)

Este capítulo oferece tudo que é necessário saber a respeito de como usar os Atributos e Pontos de Milagres para realizar… Milagres.

É importante observar que o conteúdo do subtítulo “Lesser Miracles, Major Miracles” (p.86) aparentemente foi deslocado, e pode causar confusão. Este conteúdo se refere aos Milagres de Esfera ou Reino, não de Aspecto, e pode ser ignorado, já que será repetido mais a frente, nos Atributos apropriados.

Iniciando na página 108, há um guia bem prático para a construção de personagens, com toda a pontuação para Atributos, Pontos de Milagre, Dons, Defeitos, Laços, Âncoras, etc.

* As páginas 110 a 112 não são essenciais, mas contém um exemplo de criação de personagem que pode ajudar caso algo não tenha ficado claro.

Capítulo 10 – “Gifts”
(Páginas 114 a 134*)

No subtítulo “Gifts”, da página 114, o livro fala de um tipo de habilidade que permite aos Nobilis gerar Milagres específicos, explicando como funcionam e como devem ser calculados os custos para que sejam adquiridos pelos jogadores. Mais a frente, no subtítulo “The Simple Rites” (p.122), encontramos outros poderes que os Nobilis podem usar, além de seus Milagres e Dons. Os Rituais são poderes a que todos os Nobilis têm acesso, independente de suas Esferas, portanto, é importante conhecê-los.

A segunda parte do capítulo, “Handicaps” (p.127), se refere a desvantagens que os Nobilis podem ter, que irão limitá-los e restringir seus poderes de alguma forma. Balancear um personagem com qualidades e defeitos é sempre mais interessante para uma história do que ter personagens “perfeitos”, portanto, é recomendado que o leitor dê atenção ao conteúdo desta parte tanto quanto ao dos poderes.

* A página 134 encerra com outro exemplo de criação de personagem, demonstrando as características que foram apresentadas no Capítulo 10. Apesar de não ser essencial, pode ser útil para esclarecimentos.

Capítulo 11 – “Chancels & Imperators”
(Páginas 136 a 152*)

Este Capítulo se foca em dois objetos de grande importância no jogo: o Santuário, o lar dos personagens jogadores; e o Imperator, o Senhor dos Nobilis. Aqui encontram-se informações sobre como obter características especiais para o Santuário e Imperator, além de regras de pontuação para que os jogadores o façam. Diferente da criação dos personagens, a criação destes elementos do jogo são uma experiência social, onde todos participam da criação de um único item.

A página 152 (coluna da direita) contém uma tabela referente à criação do Imperator (um guia rápido com todas as características), de visualização mais fácil e compacta, para facilitar na escolha das características desejadas pelo grupo.

*A página 143 exibe um exemplo de criação do Santuário; as páginas 152 exibe um exemplo de criação do Imperator; as páginas 152 e 153 concluem com um exemplo de um grupo de jogo construindo tanto seu Santuário quanto seu Imperator. Todos estes exemplos, assim como os anteriores, não são essenciais, mas podem servir para esclarecer dúvidas remanescentes da leitura do capítulo.

Capítulo 13 – “Resolving Conflict”
(Páginas 162 a 168)

Um capítulo muito importante, que utiliza diversos conceitos que foram introduzidos nos anteriores para resolver os conflitos que decorrem do uso dos Milagres. Algumas regras são revistas, e outras são adicionadas, para cobrir as situações não contempladas anteriormente. O confronto direto de dois Milagres, uma batalha de Milagres à longa distância ou uma reunião de Nobilis dedicados ao mesmo Milagre são apenas algumas das situações abordadas.

Outra questão fundamental é a mecânica de Ferimentos, também contida nesta parte. Há uma tabela bastante útil (“Assessing Damage”, p.164) que se refere às situações que podem ferir um Nobilis, incluindo o grau de ferimento necessário para atingir Nobilis com Dons relacionados a resistência física. Recomendamos manter um marcador nesta página, ou uma cópia desta tabela para fácil acesso durante os jogos. Aqui também há informações sobre o tempo de recuperação de ferimentos e Pontos de Milagres.

Outras informações sobre danos não-letais, doenças e envelhecimento, são mais importantes para o HG. A morte de um Nobilis, que encerra o Capítulo, é de relevância para todos os jogadores.

Das páginas 165 a 167 há um exemplo de combate: como os conflitos costumam ser a parte mais complexa de um RPG, recomendamos que este seja lido.

Capítulo 16  – “How to be a Hollyhock God Part 6 – How do Nobles Solve Their Problems”
(Páginas 191 a 196)

Neste ponto, o leitor que quiser apenas conhecer Nobilis, já tem informações suficientes. Embora esteja rotulado como sendo destinado ao HG, este Capítulo é especialmente útil para jogar, uma vez que contém dicas importantes para definir o comportamento dos personagens na história. É interessante que todos os jogadores conheçam esse conteúdo pois permitirá que o grupo como um todo esteja mais sintonizado com as características das histórias que se pretende criar com Nobilis. É claro, os jogadores não estão presos à conduta descrita no livro como sendo a mais comum entre os Nobres, mas é de se esperar que, pelo menos a maioria dos personagens não-jogadores siga estes padrões.

Capítulo 19 – “Entropy & Others”
(Páginas 224 a 228)

Assim como o anterior, este capítulo fala de outras entidades que preenchem o mundo do jogo. É interessante conhecer detalhes sobre o Lorde da Entropia, uma vez que todos os Nobilis estão sujeitos às suas leis e seu julgamento. Âncoras e pessoas comuns, assim como o tipo de relação que eles têm com os Nobres também são informações de interesse para o jogador.

Capítulo 20 – “How to be a Hollyhock God Part 8 – Characters in Detail”
(Páginas 229 a 248)

Um capítulo semelhante ao anterior, que descreve outras criaturas que habitam os mundos da Yggdrasil, como humanos em mundos fora da Terra, habitantes dos Santuários, espíritos, etc. Embora destinado, principalmente, ao HG, são boas informações para se ter em mente como jogador, ou, minimamente, estar familiarizado com elas.

Demais Capítulos
(Vale a pena lê-los também!)

É claro que, após ler tudo isso, o leitor que quiser se tornar um grande conhecedor do universo de Nobilis, principalmente se ele pretende ser o HG, o recomendado é ler todo o resto. Jogadores que apreciem boas histórias fantásticas têm uma fonte de entretenimento praticamente garantida.


Aqui encerramos a degustação de Nobilis, mas o Game Gourmet continuará trazendo receitas interessantes, com seu modo de preparo, avaliação e informações do prato. Aguardem!

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